domingo, 15 de abril de 2018

Mísseis Superfície-Ar (SAMs)




Os mísseis superfície-ar (SAM – surface-to-air-missile) são um sistema de armas destinado a destruir aeronaves e outros alvos “voadores”, a partir de lançamentos feitos da superfície, seja de bases em terra, veículos, reparos móveis, do ombro de seus operadores ou a bordo de navios de guerra. Eles dominam, na maior parte dos exércitos o papel de defesa antiaérea, sendo complementados pelo armamento de tubo que hoje já desempenham papel secundário de defesa de ponto.

Os primeiros projetos começaram seu desenvolvimento durante a Segunda Guerra Mundial, porém sem ter neste conflito seu emprego efetivo, sendo que foi a década de 1950 que viu nascer os primeiros sistemas operacionais, protagonizado por armas de grande porte. Estes anos ainda não permitiam o emprego de sistemas diretores compactos, o que inviabilizava os sistemas menores existentes na atualidade. Em paralelo aos terrestres, os sistemas navais seguiram os mesmos passos. Os primeiros sistemas SAM operacionais foram o norte-americano Nike Ajax (1954) e o Berkut S-25 (SA-1 Guild) soviético (1955).





Os “Flaks” alemães abateram os bombardeiros americanos B-17 Flying Fortress à média de 2.805 disparos para cada aeronave, um número considerado insuficiente pelos defensores. Esta baixa média levou aos primeiros estudos para desenvolvimento de projéteis de tecnologia de autopropulsão para abater alvos voadores. A baixa eficiência das armas de tubo também se deu aos claramente débeis sistemas de pontaria usados, baseados no olho humano. O B-29 Superfortress chegou tarde demais para ser empregado na Europa, porém contra eles os lançadores alemães seriam inúteis, devido a sua altitude de operação, cerca de 9.700 metros no seu teto máximo. Sistemas de tubo (7.600 metros para os Flaks 88 mm alemães) para serem minimamente efetivos nestas novas altitudes seriam excessivamente onerosos com conseqüente cadência de tiro menor.



Em 1941 foi solicitado a Werner Von Braun o estudo de um projétil para atingir até 18.000 metros. Braun sugeriu um projétil foguete tripulado, que não despertou interesse na Luftwaffe e atrasou desenvolvimentos poteciais por dois anos. A base de Peenemunde  produziu a partir de 1940, os foguetes Feuerlilie, Wasserfall e Henschel Hs 117, sem que nenhum deles experimentasse um desenvolvimento real até 1943, quando começaram os bombardeios aliados. Novos projetos como o Enzian, Rheintocher e Taifun (não guiado) foram aparecendo a medida que a situação começou a se deteriorar.

Os projetos Feuerlilie, Schmetterling e Enzian seriam impulsionados até o nível dos bombardeiros e voariam de encontro a eles à baixas velocidades como aeronaves. Um segundo grupo incluindo os projetos Wasserfall e Rheintocher eram de alta velocidade (supersônicos) que procuravam seus alvos de baixo para cima. Ambos obedeciam comandos de rádio orientados pelo olho humano ou comparando retornos em uma tela de radar. Estes sistemas experimentaram empenhos simultâneos e não chegaram a condição operacional em tempo, ademais disputas internas entre militares antagônicos contribuíram para o atraso destes desenvolvimentos. Os britânicos desenvolveram os “Z Battery”, que eram foguetes não orientados, mas devido a contarem com a superioridade aérea sobre seu território, estes sistemas não eram tão importantes.


Com o afundamento de navios aliados em 1943 por bombas Henschel Hs 293 e mísseis Fritz X, o interesse dos aliados pelos SAMs mudou. Com a liberação “stand-off” destas armas, fora do alcance das AAé dos navios, além do pequeno tamanho destes projéteis e a conseqüente dificuldade de interceptá-los a luz vermelha acendeu. A US Navy lançou um programa para desenvolver um projétil movido a ramjet para atingir 16 km a uma altitude de até 9 km operacional depois de 16 anos de desenvolvimento, como RIM-8 Talos. Os ataques “kamikaze” incentivaram os britânicos Fairey Stooge e Brakemine.

O pós-guerra assistiu o desenvolvimento de projetos SAM em todo o mundo. O US Army iniciou em 1944 o projeto Nike, resultando no Nike Ajax operacional em 1954, e em 1958 uma versão muito modificada com ogiva nuclear chamada Nike Hercules para lidar com formações de bombardeiros. A US Army Air Force lançou projeto Thumper em 1946, que combinado com outro projeto, o Wizard, resultou no dispendioso e pouco confiável CIM-10 Bomarc de mais de 500 km.

Em 1947 a Contraves desenvolveu o Oerlikon RSD58 com guiagem “beam riding” disponível já em 1952, porém com desempenho limitado devido a sua incapacidade de guiar-se ao “ponto futuro” onde o alvo estará. Várias forças o testaram, mas nenhuma venda operacional foi feita.


A URSS também seguiu o mesmo rumo e em 1951 iniciou o desenvolvimento do S-25 Berkut (SA-1) que entrou em serviço em 1955 depois de um programa apressado, e até 1956 todo o sistema defensivo de Moscou estava operacional. Era um sistema estático, e um sistema semimóvel, menor, surgiu ainda em 1957 com os S-75 Dvina (SA-2) que foi um grande sucesso e permaneceu em operação na Rússia até o ano 2000, além de vários outros países.

Os britânicos iniciaram alguns desenvolvimentos bem sucedidos, mas o fim da guerra diminuiu seu ritmo. O advento da “Guerra Fria” resultou nos sistemas Bristol Bloodhound para a RAF e no English Eletric Thunderbird para o Royal Army, em 1958 e 1959, e em 1961 a Royal Navy botou em serviço o Sea Slug.



A Guerra do Vietnam trouxe os SAMs ao enfrentamento real de aeronaves de alto desempenho, onde os mísseis soviéticos enfrentaram os mais avançados caças e bombardeiros americanos, servindo como um avançado campo de provas para as grandes potências. Cerca de 7.650 SAMs soviéticos foram fornecidos aos norte-vietnamitas, operados por artilheiros locais e técnicos da URSS, com 5.800 lançamentos e 205 aeronaves abatidas. A USAF reagiu com o ataque direto aos sítio SAMs com resultados desanimadores. Foi então que se criaram unidades especializadas “Wild Weasel” com mísseis ARM, novas táticas, coleta de inteligência eletrônica (Elint) e ECM que mudaram radicalmente a situação. O emprego dos B-52 em ambientes saturados de SAMs inicialmente não foi bom, com 3 aeronaves perdidas e várias outras avariadas em uma única missão. O aperfeiçoamento da tática e da tecnologia mudou o cenário, sendo que os defensores usaram quase todo seu estoque de mísseis para atingirem apenas mais 2 B-52 em várias missões, depois que a USAF aprendeu a lição.

Estes sistemas SAMs de primeira geração possuíam mobilidade limitada, devido ao seu tamanho, com tempo de entrada em posição demasiado longo para aqueles não fixos. Devido a ameaça que estes sistemas representaram e sua eficácia demonstrada, os vôos de alta velocidade e altitude passaram a enfrentar um grau de risco altíssimo, obrigando os bombardeiros a voarem abaixo dos horizontes-radar dos sistemas. Projetos como o F-111, TSR-2 e Panavia Tornado surgiram para suprir esta demanda. Com seus alvos voando baixo em curtas e rápidas aparições, os SAMs evoluíram rapidamente na década de 1960 para modelos menores, com conseqüente reflexo em seus níveis de mobilidade. Ao longo desta década a maioria das forças armadas já contavam com projéteis de curto alcance montados em plataformas móveis, blindadas ou não, que podiam acompanhar as forças que protegiam. Dentre os modelos existentes podemos citar o 2K12 Kub (SA-6), o 9K33 Osa (SA-8), o MIM-23 Hawk, O BAC Rapier, o Euromissile (Aerospatiale/MBB) Roland e Thomson CSF Matra Crotale.




O surgimento dos mísseis “Sea Skimming” (antinavio) no final dos anos 1960 e 1970 fez surgir outros projetos de médio e curto alcance visando a defesa antinavio, como o Sea Cat britânico que foi concebido para substituir os Bofors 40 mm nos navios da Royal Navy, tornando-se o primeiro SAM operacional de defesa de ponto. O RIM-7 Sea Sparrow dos EUA também se proliferou rapidamente, entre outros.


A medida que as aeronaves voavam mais baixo e modelos mais compactos tornaram-se possíveis, chegou-se ao ponto de modelos portáteis se tornarem viáveis. Denominados MANPADS, o primeiro modelo foi um sistema da Royal Navy conhecido como Holman Projector, usado como uma arma de último recurso em navios menores. Os alemães também produziram uma arma conhecida domo Fliegerfaust, que não entrou em operação. Estes ainda durante a guerra. O desempenho destas armas não se comparava ao de seus alvos a jato do pós-guerra, e se mostraram pouco efetivos.

A década de 1960 trouxe o FIM-43 Redeye dos EUA, o 9K32 Strela-2 (SA-7) dos soviéticos e o Blowpipe britânico. A miniaturização da eletrônica da década de 1980 produziu o FIM-92 Stinger dos EUA, o 9K34 Strela-3 (SA-14) e o Starstreak britânico, com desempenho drasticamente melhorado. Estes mísseis relegaram a artilharia de tubo a papéis secundários como a defesa de aeródromos e navios, estes especialmente contra mísseis de cruzeiro. Na década de 1990 mesmo este papéis estavam sendo ocupados pelos MANPADS como o General Dynamics (Raytheon) RIM-116. Todos eles valendo-se da guiagem IR que dispensa acompanhamento e sistemas diretores.



Características

Os mísseis SAMs enquadram-se e 3 categorias principais: Sistemas pesados e de longo alcance, geralmente instalados em sítios fixos ou em condições semimóveis; sistemas montados em veículos com alta mobilidade, de médio alcance e capazes de disparar em movimento e acompanhar forças mecanizadas em marcha e sistemas portáteis ou MANPADS.


Os SAMs de longo alcance modernos estão representados nos sistemas MIM-104 Patriot dos EUA e S-300 dos russos, este com alcance bem superior ao primeiro, ambos com boa mobilidade em contraste aos antigos Nike Hercules e S-75. Seus alcances giram na ordem dos 80 km aos 300 km ou mais, notadamente superiores aos seus antecessores principalmente devido aos combustíveis de nova geração e sistemas eletrônicos cada vez menores e mais capazes. O sistema S-400 russo pode alcançar até 400 km. O projeto David’s Sling de Israel veio para substituir no exército judeu o MIM-104 Patriot e MIM-23 Hawk e se propõem a interceptar mísseis balísticos táticos em baixa altitude. É um veículo de vários estágios e combustível sólido e interceptador com características de supermanobrabilidade.

Os engenhos de médio alcance Rapier e 2k12 Kub (SA-6) foi concebidos para serem altamente móveis, prontos para disparo imediato e em movimento, montados em viaturas e capazes de acompanhar composições altamente móveis de blindados. A década de 1990 deu menos importância a esta categoria, onde o foco mudou para a guerra assimétrica e os sistemas MANPADS.

Estes sistemas de mísseis portáteis e lançados do ombro do atirador ou de reparos leves provaram-se em batalha durante a década de 1970.  Possuem alcances da ordem de 3 km e são eficazes contra helicópteros de ataque e aeronaves em vôo baixo. Uma de suas qualidades é forçar aeronaves de asas fixa voarem fora de seu envelope, com conseqüente “downground” em seu desempenho. Alguns sistemas são montados em veículos como o Avenger, preenchendo o nicho anteriormente ocupado pelos sistemas médios.



Os SAMs montados em plataformas navais, além da ameaça aérea, devem contrapor os sistemas antinavio “sea skimming”, e muitos são especialmente concebidos para esta finalidade. São de fácil montagem, tanto em navios grandes como em muito pequenos. Navios altamente especializados na operação de SAMs e na guerra antiaérea como os norte-americanos que operam com o sistema Aegis, como por exemplo a classe Ticonderoga e Arleigh Burke, e a classe russa Kirov que opera o S-300PMU, equipam as marinhas mais poderosas. Alguns navios estão armados com 3 tipos para defesa milticamadas.

Os SAMs utilizam basicamente 2 tipos de sistemas de orientação. O principal deles é a orientação por radar, seja na vigilância e detecção, seja na orientação, sistema este usado na maioria dos mísseis. Alguns usam o controle via rádio e os modelos mais avançados possuem radar orgânico para orientação final. Durante a década de 60 usava-se o radar semi-ativo (SARH), onde o emissor ficava no chão e o equipameto do míssil apenas encarregava-se de receber o sinal refletido e corrigir sua trajetória.

O sistemas MANPADS usam a orientação IR e IIR com os mísseis apenas lançados na direção do alvo. Operam no envelope “dispare e esqueça”, e em contraponto aos sistemas SARH não necessitam de sistemas de acompanhamento. Existem sistemas mistos, mas estes são pouco usados. Alguns sistemas usam uma variação da técnica SARH, com iluminação laser no lugar do radar, sendo pequenos e de reação muito rápida, além de altamente precisos. O sistema mais conhecido de orientação por comando (rádio) é o Rapier, que inicialmente tinha acompanhamento puramente ótico com alta precisão.



Os sistemas SAMs contam ainda com dispositivos IFF para diferenciar alvos inimigos de aeronaves amigas, a exceção dos MANPADS onde o alvo é identificado visualmente e sua existência não é tão importante, sendo que a maioria não os possui.

Os sistemas de longo alcance usam radares para detecção de seus alvos, e em alguns sistemas podem entregar para um radar de rastreamento o endereçamento do SAM até seu destino. Os sistemas de alcance menor tendem a ter detecção visual, podendo também se valer dos radares de vigilância, principalmente os mais recentes. Existem também os sistemas híbridos como o MIM-72 Chaparral disparado oticamente, mas com um radar de alerta antecipado e guiagem final a IR. 



Modelos de Mísseis SAM
  • Segunda Guerra Mundial
    • Enzian - Alemanha
    • Wasserfall - Alemanha
    • Rheintochter - Alemanha
    • Funryu - Japão

Sistemas Modernos

  • África do Sul
    • Umkhonto
    • Marlin
  • Alemanha
    • Roland
    • IDAS
    • LFK NG
  • China
    • TY-90
    • HQ-2
    • HQ-7
    • HQ-61
    • HQ-6
    • HQ-64
    • HQ-16
    • HQ-17
    • FL-3000N
    • KS-1/HQ-12
    • FM-3000
    • Sky Dragon 12
    • Sky Dragon 50
    • DK-10
    • FK-3
    • HQ-9
    • HQ-22
    • HN-5
    • QW-1
    • QW-2
    • QW-3
    • FN-6
    • KS-1 
  • Coréia do Norte
    • KN-06
  • Coréia do Sul
    • Chiron
    • KM-SAM
  • EUA
    • FIM-43 Redeye
    • FIM-92 Stinger
    • MIM-3 Nike Ajax
    • MIM-14 Nike-Hercules
    • CIM-10 BOMARC
    • MIM-14 Nike Hercules
    • MIM-23 Hawk
    • MIM-72 Chaparral
    • MIM-104 Patriot
    • RIM-24 Tartar
    • RIM-2 Terrier
    • RIM-8 Talos
    • RIM-7 Sea Sparrow
    • RIM-50 Typhon
    • RIM-66 Standard (SM-1MR/SM-2MR)
    • RIM-67 Standard (SM-1ER/SM-2ER)
    • RIM-113
    • RIM-116 
    • RIM-161 (SM-3)
    • RIM-162 ESSM
    • RIM-174 Standard ERAM (SM-6)
    • THAAD
  • França
    • Masurca
    • AS-20
    • Roland
    • Crotale
    • Mistral
    • MICA
    • PARS 3 LR
  • Grécia
    • Aris AA
  • Índia
    • Akash
    • Barak 8
    • Maitri
    • Trishul
    • Pradyumna 
    • Ashwin 
    • PDV 
  • Iran
    • Bavar 373
    • Fajr
    • Mehrab
    • Shahin
    • Shalamche
    • Misagh-1
    • Misagh-2
    • Qaem
    • Taer-I
    • Taer-II A, B e S
    • Sayyad-1
    • Sayyad-1A
    • Sayyad-2
    • Sayyad-3
    • Sayyad-4
    • Shahab Thaqeb
    • SM-1
    • Ya Zahra
    • Herz-e-nohom
    • Raad
    • Iraq
    • Al Arq
    • Al Hurriyah
  • Israel
    • Arrow 2
    • Arrow 3
    • Barak 1
    • Barak 8
    • David's Sling
    • Iron Dome
    • SPYDER
  • Itália
    • Aspide
  • Iugoslávia
    • R-25 Vulkan
  • Japão
    • Type 91
    • Type 03 Chu-SAM
    • Type 81 Tan-SAM
    • Type 93 "Closed Arrow" SAM
    • Type 11 Tan-SAM Kai II
  • Noruega
    • NASAMS
    • NASAMS 2
  • Paquistão
    • Anza I, II, III
  • Polônia
    • GROM
  • Reino Unido
    • Thunderbird
    • Blowpipe
    • Bristol Bloodhound
    • English Electric Thunderbird
    • Javelin
    • Rapier
    • Sea Cat
    • Sea Slug
    • Sea Dart
    • Sea Wolf
    • Starstreak/laser
    • Starburst/laser
    • CAMM
  • Romênia
    • CA-94
    • CA-95
  • Rússia
    • 2K11 Krug/SA-4 "Ganef"
    • 2K12 Kub/SA-6 "Gainful"
    • 2K22 Tunguska/SA-19 "Grison"/SA-N-11
    • Kashtan CIWS (naval gun-missile system including SA-19/SA-N-11)
    • 9K33 Osa/SA-8 "Gecko"/SA-N-4
    • 9K31 Strela-1/SA-9 "Gaskin"
    • 9K32 Strela-2, a.k.a. SA-7 Grail
    • 9K34 Strela-3/SA-14 "Gremlin"/SA-N-8
    • 9K38 Igla/SA-16 "Gimlet"/SA-18 "Grouse"/SA-24 "Grinch"/SA-N-10/SA-N-14
    • 9K333 Verba
    • 9K35 Strela-10/SA-13 "Gopher"
    • 9K37 Buk/SA-11 "Gadfly"/SA-17 "Grizzly"/SA-N-7/SA-N-12
    • Pantsir-S1/SA-22 "Greyhound"
    • 9K330 Tor/SA-15 "Gauntlet"/SA-N-9
    • 42S6 Morfey
    • S-25 Berkut/SA-1 "Guild"
    • S-75 Dvina/SA-2 "Guideline"/SA-N-2
    • S-125 Neva/Pechora/SA-3 "Goa"/SA-N-1
    • S-200 Angara/Vega/Dubna/SA-5 "Gammon"
    • S-300/SA-10 "Grumble"/SA-12 "Gladiator/Giant"/SA-20 "Gargoyle"/SA-N-6
    • S-350 (50R6) Vityaz
    • S-400 Triumf/SA-21 "Growler"
    • S-500 55R6M "Triumfator-M."
    • Strela 2/SA-7 "Grail"/SA-N-5
    • M-11 Shtorm/SA-N-3 "Goblet"
  • Suécia
    • RBS-70
    • RBS-23
  • Suíça
    • RSA
    • RSD-58
  • Tailândia
    • DTI-1G
  • Taiwan
    • Antelope
    • Sky Bow
  • Turquia
    • Atilgan PMADS
    • Zipkin PMADS
    • HiSAR
  • Multinationacionais
    • Aster  - França/Itália
    • RIM-116 EUA/Alemanha
    • Roland - França / Alemanha
    • MEADS - EUA/ Alemanha / Itália

O Míssil Antinavio



Os primeiros mísseis usados contra embarcações foram lançados de bombardeiros nazistas durante a segunda grande guerra, quando a Luftwaffe desenvolveu os modelos guiados por rádio Hs 294 e Ruhrstahl  X-1 (Fritz X), este uma bomba guiada, atingindo e danificando vários barcos aliados. Os Aliados por sua vez desenvolveram, já nesta época, para contrapor esta ameaça, as primeira contramedidas através do bloqueio aos sinais de rádio-guiagem. Estes também implementaram, já neste conflito, seus primeiros passos neste campo, porém com pouquíssima expressão.
Findo o conflito e com o advento da guerra fria, os aliados ocidentais abandonaram estes desenvolvimentos, concentrando-se na consolidação de sua estratégia de aviação naval. Os grandes encouraçados de outrora já haviam cedido seu trono a era dos porta-aviões, que reinam até os dias de hoje como as principais belonaves usadas para projeção de poder e controle de área marítima. Os EUA começaram em 1955 a mobiliar sua armada com estes super-navios capazes de embarcar quase uma centena de aeronaves. As forças da NATO passaram a contar, onde quer que estivessem, com ampla cobertura aérea de longo alcance em torno de suas frotas. Os estrategistas soviéticos consideravam o território da URSS um grande navio-aeródromo e não viam estes navios como uma prioridade. Suas numerosas bases aéreas lhes proporcionavam uma presença em grande parte do território mundial e fazer frente às armadas da NATO delineou sua estratégia naval, baseada em submarinos, minas navais e mísseis antinavio.
A Guerra dos Seis Dias de 1967, um dos episódios mais conhecidos da aparentemente sem fim disputa árabe-israelense, marcou a estréia de uma nova arma. Um projétil até então desconhecido do mundo, o Raduga P-15 Termit de origem soviética, mais conhecido pela sua designação NATO SS-N-2 Styx , atingiu o destróier do país judeu Eilat. Dois FACs da classe Komar (NATO) egípcios dispararam 4 mísseis desde uma distância de 23 km de Port-Said, onde serviam como unidades de defesa costeira. Apesar do fogo defensivo da tripulação do navio, que imaginou estar sendo atacada por aeronaves, já que estas armas eram novidade, 3 Styx o atingiram selando seu destino, que afundou em algumas horas matando 47 e ferindo gravemente grande parte de tripulação. Devido ao ineditismo da situação, o treinamento dos artilheiros para engajar este tipo de arma era inexistente.

O episódio provocou uma reação de surpresa e pânico nos estrategistas ocidentais, que se deram conta que não tinham nada parecido. Claramente os EUA (e a NATO) e seus poderosos porta-aviões estavam vulneráveis ao impacto de um pequeno projétil de pouco mais de 2 toneladas baseado na fuselagem de uma pequena aeronave experimental. Havia um imenso “gap” entre a URSS e a NATO, e esta pos mãos a obra com o intuito de superá-lo.
O desafio soviético era o de penetrar defesas poderosas e profundas para atingir navios muito grandes, representadas por ampla cobertura aérea vinda dos navios-aeródromos escoltados por sistemas antiaéreos Terrier/ Tartar e Talos e posteriormente pelo que de melhor existem em cobertura antiaérea naval na atualidade, o sistema AEGIS. Durante a 2GM o canhão era a principal arma naval, logo superado pelo avião no pós-guerra, que por sua vez dependia dos grandes e caros navios-aeródromos, só disponíveis às grandes marinhas. Penetrar estas defesas fazendo o uso de aeronaves de bombardeio não era uma tarefa fácil, o que resultou em desenvolvimentos de mísseis de longo alcance, dotados de ogivas potentes.
Diante destas necessidades tático-operacionais distintas, os mísseis antinavio soviéticos e ocidentais seguiram uma filosofia própria. Enquanto que os países da NATO desenvolveram engenhos menores, que podiam ser vetorados por caças capazes de levar seus mísseis mais próximos de seus alvos, com o intuito de atingir navios menores como eram aqueles do Pacto de Varsóvia, os soviéticos desenvolveram projéteis até hoje sem equivalentes no ocidente. Como tinham que lançar seus mísseis de alcances maiores acabaram por construir projéteis comparados a pequenas aeronaves pelo seu tamanho, deslocando-se a altas velocidades, por vezes supersônicas, para vencer defesas pesadas provenientes dos navios-aeródromos e com ogivas pesadas, algumas nucleares, para alvejar navios grandes, que por sua vez voavam mais alto e podiam ser mais facilmente detectados e interceptados, além de pouco manobráveis.

Na guerra naval existem uma distância padrão que é de 38/39 km. Esta distância se refere ao alcance de um radar montado no mastro de um navio qualquer, não importando sua potência. Esta limitação se dá pela curvatura da terra, a partir da qual o navio simplesmente não “enxerga”. Nenhum míssil disparado de uma nave de guerra pode atingir seu alvo além desta distância, simplesmente porque o navio não sabe que ele está lá, razão pela qual, por exemplo, o míssil francês MM38 Exocet foi concebido com alcance similar. Para contornar esta limitação e dispor de um alcance maior para suas armas, as marinhas de guerra tem duas alternativas: contar com suas várias unidades operando em comunicação constante, modernamente na forma de NCW, dizendo umas as outras onde os alvos estão, o que não resolve o problema, pois sempre haverá a nave que está mais à vanguarda, ou contar com meios aéreos que tem um horizonte-radar muito ampliado e podem designar alvos para mísseis com alcance superior ao padrão citado. Estes meios aéreos podem ser aeronaves de patrulha marítima ou AEW baseadas em terra, aeronaves baseadas em navios-aeródromos, helicópteros baseados em todos os tipos de navios, drones, dirigíveis, balões, etc...
A designação do alvo por um helicóptero naval, por exemplo, justifica a existência de mísseis lançados da superfície com alcance superior ao padrão citado. O meio aéreo tem que dizer onde o alvo está, e o míssil chegará até lá guiado pelos dados inseridos em sua memória antes do lançamento e trajetória garantida pelo INS. Ao aproximar-se do alvo, que não estará mais lá, pois deslocou-se e na guerra naval ninguém fica parado, o míssil ligará seu radar de busca e fará o ajuste fino de sua pontaria compensando a mudança de posição do alvo. Dessa forma temos mísseis com alcances bem superiores aos 38 km do horizonte-radar naval. Os mísseis antinavio lançados do ar não estão submetidos a esta limitação, pois o radar de seu lançador pode endereçá-lo diretamente. Por esta razão muitas marinhas que não dispõem de navios-aeródromos equipam seus helicópteros com estes projéteis, podendo helicópteros mais pesados portarem mísseis mais capazes.
Os mísseis soviéticos destacam-se pelo tamanho, alguns baseados em fuselagens de aeronaves já existentes como o Mig-15. Equipam bombardeiros, navios de superfície e submarinos. Possuiam ogivas poderosas e grande alcance como os Raduga KSR-2  (AS-5 Kelt) e Raduga KSR-5 (AS-6), com ogivas de 1 ton ou mesmo nuclear de 350kt, com alcance acima dos 300 km e velocidade acima de mach 3,5, tão grandes que um bombardeiro Tu-16 carregava apenas um deles nos tempos da Guerra Fria. Seguiram-se outros modelos como o P-120 Malakhit (SS-N-9) de mach 0,9 e alcance em torno dos 100 km+, o Raduga P-270 Moskit (SS-N-22) com alcance de até 270 km de velocidade de mach 3 e o P-800 Oniks (SS-N-26) que deu origem ao indiano Brahmos, também supersônicos (mach 2,5) e alcance por volta dos 300 km.

O ocidente adotou o conceito “sea skimming” , com o míssil voando rente a superfície do mar, não detectável, portando, por grande parte de sua trajetória, dificuldade esta acentuada pelo tamanho reduzido dos projéteis. Os modelos Exocet francês e Harpoon dos EUA se valem deste perfil operacional. Esta postura exige do projétil um rigoroso controle de altitude de forma a não se chocar com a superfície do mar, controle este desempenhado por um radar-altímetro. Vôos baixos não combinam com altas velocidades pois o arrasto é muito grande com impacto direto no alcance, e o supersônico Brahmos indiano voa baixo apenas em sua trajetória final.
Mísseis com maior velocidade reduzem o tempo de reação das defesas, porém consomem mais combustível e possuem maior assinatura térmica e radar, além de menor capacidade de manobra. Outra forma de dificultar o trabalho dos defensores é realizar ataques de saturação, onde vários mísseis são lançados ao mesmo tempo sobre um mesmo alvo. A guerra do Atlântico-Sul em 1982 mostrou ao mundo o poder deste projéteis, quando um AM39 Exocet da Armada Argentina fulminou o destróier de sua majestade Sheffield, um pouco acima da linha d’agua, pondo-o a pique, impacto este fruto de uma série de indecisões a falta de efetividade por parte dos defensores. Os últimos anos trouxeram radares capazes de “ver” de forma efetiva os mísseis de vôo baixo , que acoplados a sistemas antimísseis automáticos, com mísseis antimísseis ou canhões de tiro rápido, constituíram uma contramedida considerável, o que está forçando os projetistas a considerarem as tecnologias furtivas, pois aquilo que não se pode ver não se pode abater. Considera-se as tecnologias já conhecidas de materiais e formas, porém a operação passiva com disciplina de emissões também é importante.

Os mais populares mísseis do ocidente são Harpoon dos EUA, lançado da superfície, ar ou submarinos, subsônico, com até 250 km de alcance e ogiva de 221 kg, guiagem final por radar ativo. O MM-40/SM-39/AM-39 Exocet da MBDA com até 180 km de alcance, lançamento tal qual o americano e ogiva de 165 kg. Existem outros como o sueco RBS-15 com até 250 km de alcance e ogiva de 200 kg, o italiano Otomat e e o britânico Sea Eagle, entre muitos outros.
Um míssil antinavio é um pequeno míssil de cruzeiro, sendo que alguns mísseis de cruzeiro podem ser usados na função antinavio, como o Tomahawk dos EUA, o míssil antinavio de maior alcance do mundo, podendo atingir cerca de 1800 km, porém é um míssil de cruzeiro e custa como um. Outro conceito possível é o do míssil balístico, aventado pelo chineses como operacional. O vôo balístico combina altíssima velocidade e impacto cinético, prescindindo de explosivos. Como sabemos velocidades de reentrada superam em muito as marcas hipersônicas, e fica a dúvida quanto a efetividade: como se aponta de forma certeira um projétil balístico sobre um alvo móvel ? a resposta pode ser o ataque de saturação, onde muitos projéteis sobre uma frota, pode ser que acerte alguém. Radares ativos e aletas defletoras dirigindo um projétil incandescente ? Fica a dúvida. Porém, se forem eficazes, contramedidas terão que ser sofisticadas, para não dizer quase impossíveis. Talvez o futuro pertença a velocidade supersônica ou hipersônica e uma aparentemente incompatível capacidade furtiva.

Mísseis menores da variadas características foram desenvolvidos para equiparem os helicópteros navais, que além de designarem alvos para os vasos de superfície podem portar seus próprios projéteis, de alcance mais curto e ogiva menos potente, como o Penguin norueguês e o Sea Skua britânico. Pesam menos de meia tonelada e geralmente alcançam menos que o horizonte-radar da naves de superfície. Mísseis maiores como o AM39 também podem ser lançados dos helicópteros maiores como EC-725 ou Sea King. Estes Engenhos podem afundar barcos menores ou provocar deterioração nos sistemas e operacionalidade dos maiores. Como já citado o AM39 colocou um destróier britânico fora de combate. Uma pequena ogiva pode provocar uma grande dano se atingir um paiol ou reservatório de combustível, ou um dano operacional sério, se atingir, por exemplo um COC, mesmo em um vaso de grande porte. Ogivas podem ser equipadas com material incendiário para maior efetividade.

O foco na guerra de “águas azuis” da guerra fria passou a ser compartilhado com os conflitos assimétricos e mais próximos da costa dos tempos modernos, o que levou os mísseis antinavio a se adaptarem as peculiaridades deste cenário, cheio de meandros e recortes de litoral onde embarcações velozes e bem armadas reinam, operação esta que só se tornou possível devido a precisão de sistemas como o GPS que permitem que estes engenhos contornem os acidentes naturais. As embarcações de pequeno porte, privadas da operação dos grandes canhões no passado, passaram a contar com poder de fogo compatível. 

Para conter esta ameaça, é vital aos navios da atualidade disporem de contramedidas eficazes. O navio primeiramente tem que evitar ser detectado valendo-se de tecnologias furtivas e disciplina nas emissões. A primeira linha de defesa são a patrulhas de combate aéreo (CAPs), e seus mísseis ar-ar (AAM) geralmente oriundas de navios-aeródromos ou mesma baseadas em terra, estas de alcance limitado. Estas patrulhas podem alcançar centenas de quilômetros à frente da frota. Para aqueles que passem por esta primeira barreira, ou em grupos de combate desprovidos destes navios, a interceptação fica a cargo dos SAMs de defesa de área e que tem capacidade antimíssil, pois não é para qualquer um, como os Standart dos EUA. Se vencida esta segunda barreira fica ainda uma terceira e última camada representada por mísseis de defesa de ponto como o Sea Ceptor ou canhões de tiro rápido como os CIWS. Outras medidas também entram em ação como o lançamento de engodos (chaffs/flares) e outras medidas de EW e a diminuição do perfil, posicionando o navio de forma a oferecer um alvo menor.